Voou pra longe, minha andorinha

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Eu era cabra de pouca fé e por isso consentia ser tamanha bobagem o pedido habitual de Eulália ao rezar: : “Que me traga o extraordinário, meu Pai”. Finalizava seu apelo com o sinal da cruz e ficava alguns poucos instantes em silêncio. Não minto que era gracioso de se ver, doce. Os seios fartos me chamavam a atenção nessa hora santa, inclusive foram eles que me fizeram ir atrás dessa mulher, quando ainda moça rezava na estátua de Padre Cícero que ficava ao lado da praça.

Por não entender muito das redenções religiosas, eu escolhi a música para me aproximar da jovem. Treinei por duas semanas um baião que falava sobre as madeixas trançadas e caídas pelo dorso em oração. Citei em verso palavras bonitas que mencionavam os vestidos longos e floridos que esboçavam bem o corpo polpudo de Eulália. O extraordinário, na minha modesta opinião, foi o dia que essa belezinha assentiu o galanteio em rima com um sorriso danado.

Fizemos família como manda o figurino, padre conduziu cerimônia com hora marcada e toda pompa. Mataram boi, temperaram leitão, doces enfeitados, bebida a rodo, sem miséria. Suas ancas não mentiram quando me disseram ao andar que Eulália nasceu para ser parideira, foram 4 meninos. Minha mulher seguiu sendo o único perfume em flor daquela casa, reinava.

De um dia para o outro, a bichinha começou a mirrar. Não em sua beleza, era coisa do lume mesmo. Não com os conhecidos, apenas comigo. Nosso cotidiano perdeu algum brilho antes visto como comum, foi esse o pecado cometido. As rezas noturnas ganharam até promessas, uma vela por dia. Os solenes pedidos ficaram mais afoitos, tamanho desespero daquelas tranças.

Foi desse jeitinho, em passos vagarosos, meio que capengando, que Eulália me desabitou. Com um silêncio sutil que aos poucos ocupou todo o espaço dessa casa. Nem mesmo minhas modas faziam seu olhar mangar da solidão. Eu entendo que tive meus desencontros com o quesito fidelidade, paciência e romantismo. Mas minha rainha, até então, nunca tinha criado caso com as minhas desculpas esfarrapadas.

As risadas e suas pernas cruas em nosso sofá perderam o protagonismo para uma manta introvertida, que passou a cumprir disfarce do nosso cotidiano sem cortesia. De fato, há tempos já não sabia cortejar minha mulher. Foi desde a sua terceira barriga. Como se as crianças e a lavoura me desgastassem a ponto de apenas conseguir fugir daquela mesa dependente de 4 pratos, dia e noite, a custo do meu suor.

Não me defendo por isso, nem uso como desculpa o meu descaso. O pedido cumpriu promessa e o extraordinário de fato aconteceu. As coxas volumosas de minhas senhora, que viviam estiradas fazendo presença perfeita no meu lençol, viraram apenas o amarfanhado da roupa de cama sem trocar. Os filhos já enfrentavam suas sinas, não precisavam de cuidados, sobrou-lhe tempo para desejar mais que uma companhia já troncha pela vida. Minha andorinha sentiu falta de reinar. Buscou a realeza em outro canto. Dizem que foi embora com o circo; parece que um farsante, dito como ilusionista, levou minha mulher. Na crueza do meu costume, ficou difícil competir com tal especialidade.

Hoje em dia não canto mais em vão, foi a decisão que tomei. Meu violão já não consegue nem piar nota miúda. Como compor quando os acontecimentos comuns deixam de ser milagres? Isso não é coisa de músico. Talvez para mágico. Sendo assim, ficou o último refrão que dizia: voou pra longe, minha extraordinária andorinha.

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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