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O pó no início da música quando desce a agulha para o vinil, a folha quando vira-se a página, o estalado na mordida da maçã, o seu ressonar antes de dormir completamente, o ruído do vento pelas frestas da janela de vidro, o desembrulhar do chocolate, o estouro da placenta, o sussurro antes do coito, o tocar da corda extremamente bem afinada do meu violão de adolescente, fico por horas imaginando todos esses ruídos afetivos enquanto você grita comigo.

Não quero nos magoar, não mais. Não posso mais acreditar nas coisas que todos insistem em dizer. Nem boas, nem ruins. Inspiro e escuto meu ar descendo pela garganta como a professora de yoga ensinou, as mãos quentes na minha costela, tentando me colocar num eixo que não condiz com as minhas emoções. Vem na mente os gritos, eu tento fugir com o sino da igreja, que insiste lá longe, tão distante como nossos sonhos juvenis. Fecho os olhos para que meu equilíbrio fique comprometido, assim eu apenas presto atenção no ar entrando e saindo, sem tombar, com a calorosa mão em meus pulmões.

Lembra quando corríamos? Por uma via longa bem na nossa frente. Hoje nem enxergamos mais o ponto de partida. Será que não usamos os sapatos adequados? Digo isso porque meus pés sangram nas caminhadas. Volto à postura do yoga, parada, sozinha. Ar que entra, ar que sai. A voz calma da instrutora: “Certifique-se do momento presente”. Sim, professora da voz macia, estamos vivos. Ar expande meu abdômen, foi assim que fizemos esse filho que esconde-se por anos em meu ventre, sem querer sair. Ele tem medo dos barulhos do mundo, ainda que eu tente lhe mostrar maravilhas como a lembrança do peso do baixo na orquestra, a velocidade nos dedos da pianista do concerto, o poema recitado pelo morador de rua, as pequenas ondas quebrando na areia, o coleção de cucos do vovô, as risadas das brincadeiras de corda na fazenda da tia, o queimar do brigadeiro no fundo da panela.

Quando a construção alucinada, a obra fora de hora do vizinho, o carro da pamonha, o apito do afiador de facas, a ambulância longe, as botas de guerra dos jovens em marcha, aquela corda um milésimo desafinada, o salto alto batendo no taco de madeira (quem consegue torturar tanto os pés?), o vibrar do celular que interrompe os minutos tentam amedrontar o feto, eu canto mais alto que o susto e danço para confundi-lo.

Não grite por coisas tão pequenas. Não sou eu, eu sei. É a vida, os prazos do trabalho, as contas juntando juros, a multa desavisada. Venha aqui, veja como eu faço: inspire, expire. Certifique-se do momento presente. Feche os olhos, estou bem atrás de você, eu te seguro caso perca o equilíbrio. Coloque a mão em meu ventre. Está ouvindo? Vou parir aquele bebê assustado. Esses gritos duram apenas as contrações, não precisa se preocupar. Viu? Ele voou, deixe-o ir. Essas feridas vão cicatrizar, o sangue marcará nossa trajetória para que possamos voltar e nos lembrar de tempos ingênuos. Sinta o ar, vamos! Meus pés já estão calejados, podemos andar à vontade. Escuto apenas a sua respiração misturada com a minha: ar que entra, ar que sai… Meu coração acertou o ritmo, obrigada. Coloque suas mãos quentes em meus pulmões. Encontro o eixo, nada mais escuto, flutuo. Parece que a água do mar que me faz boiar também tampa os meus ouvidos.

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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