A moeda está debaixo da casca de noz da direita, insisti com o mágico. Ele ficou apreensivo com a minha ousadia de chutar tão em cima, e numa risada amarela desfez os barquinhos do fruto com uma rapidez de mestre. Ainda assim eu pude ver, que a moeda estava onde eu tinha previsto. Generoso, nada disse. Não queria encabulá-lo diante da sua dezena de espectadores.

Se ele tivesse sido honesto comigo e com a sua plateia, eu teria lhe ensinado a voar. Ou pelo menos a desejar por isso. Fosse literalmente tirando os pés do chão ou com o tipo de magia sem truques que ele desconhece. Virei as costas sem demora para pegar a sua mão, bailarina de rua. Afinal, pela sua dança, eu percebi logo que você entendia bem que pouco importa onde se acham as moedas. A barquinha de noz é mais preciosa que qualquer coisa que ela possa esconder.

Então, vamos fazer o seguinte: leve-me com as suas sapatilhas para alguma galáxia qualquer. Mesmo se for aquela porta de garagem com papéis poéticos colados em seu latão. Sabe? Ali, dobrando a esquina, onde tocam músicas dos nossos antepassados. Vamos viver um pouco da essência que nos fez.

Me disseram que passos dados por essas vias um dia será perigoso demais. Ouvi também que não será aconselhável para uma bailarina pegar nas mãos de quem quer que seja. Podemos acreditar nisso? Creio que não. Mas, por via das dúvidas, eu posso te ensinar a voar. O que acha, menina com saias de filó?

Essa mão vem em meu ombro, aqui. Isso! Agora coloque a outra mão em minha cintura. Não seja tímida, enlace-se em mim. Assim! Relaxe os seus ombros. Respire comigo. Gosto do seu sorriso! Me dá licença, isso será necessário, preciso beijar cada uma das suas pálpebras para que elas permaneçam fechadas sem que possam ver o meu truque barato. Agora dance, bailarina. Me guie em seus passos. Logo estaremos bem longe desse chão.

Nada mais importa agora, nada mais. Não precisamos voltar, mas antes preciso te contar um segredo. Eu fui mais esperto que o mágico e roubei-lhe as suas barquinhas de nozes. Olha! Afinal, ele não se preocupou em roubar a minha verdade bem na sua frente. Isso não se faz. Elas nos serão úteis de outra forma. Veja! Assopre os seus sonhos e cole uma casquinha na outra. Pronto, depois de germinados, comeremos a semente, juntos. Assoprei para essa dança jamais acabar.

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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