Imagem de Trystan DeArth-Pendley por Pixabay

Com sandálias de corda, vestindo cores de frutas suculentas em panos costurados pelas próprias mãos, surgia dona Alice. Era um sorriso dançante que emprestava gentileza ao todo que nos preenchia. O corpo moreno agitava aceno, me fazendo aluno orgulhoso e moleque invejado por todos os marmanjos da padaria.

Um dia, essa dona, sem dó nem piedade, ocupou-me de angústia. Resolveu, de hora pra outra, ir embora com um forasteiro que desfez a solteirice da professorinha. Não era cabra dessas bandas, nunca nem pisou com a sola nua nessas terras. Minha Alice, se é que me permitem o uso do pronome, cumpriu audácia sem se despedir da turma. Aquele menino, magricelo, que sonhou com o dia que seria homem suficiente para ensinar algo a flor em vez de aprender, ofuscou por completo. Foi de rumo certo, disseram. Sem pestanejar, para longe daqui. Bem longe! Me apeguei em desvario, num ceticismo absoluto. Eu, menino de tanta fé, andei bambeando pelos acostamentos dessa estrada sem estudo, sem destino certo pra mais de ano. Já que de pais não dispunha obrigação, sendo eles desatentos depois de oito crias para alimentar.

Certa manhã, acordei em susto, talvez por alguma intuição que ganhei do meu padrinho padre Cícero. Entendi que precisava dar rumo. E numa atmosfera com o cheiro de todas as frutas, senti forte a batida dos pés delicados. Corri para ver se não era sonho, mas o vento fresco de amanhecer mostrou deboche da minha insensatez. Corri então, desajustado: “Professora Alice!”. Ela sequer olhou pra trás. Se não bastasse a afronta de um dia seguir sem as mesuras do aceno, ignorou suplício. E dobrando a curva do capote, onde fica a cruz dos desencarnados pela via perigosa, numa neblina descontinuada, a saia colorida desapareceu.

Não havia azul, amarelo, vermelho e muito menos o jambo no amanhecer. Ainda que eu ouvisse o riso afoito da moça, que me cutucava sem piedade, nada mais enxergava. Um vento assoprou espinha inteira de dar arrepio aos ossos. O som findou, nasceu o dia. Fiquei plantado feito cruz de esquina, onde as condolências mandam que nem o vento balance. Passou o Dito com a boiada, dona Amélia com trouxa na cabeça, e nada de dona Alice.

Foi somente quando sino da igreja tocou, já com o sol se fazendo arder os miolos às nove da manhã, que entendi: a minha Alice, que deixou terras pequenas por sonhar demais, que não nos deu o grado da solenidade de despedida para não fazer ninguém chorar, as cores do meu mundo em toda aquela vida que eu conhecia, já não mais nos pertencia. Foi o jeito de tocar o sino, arrebatando presságios agourentos da dama da foice que nunca gostaríamos de ouvir, nos avisava da passagem de membro da cidade. Cargo de professor cabia um ritual diferenciado. Foi o som tilintante misturado com a minha miragem de fantasma pela madrugada que me fez entender o ocorrido.

Não pude rezar, muito menos me fazer são nessa hora pachorrenta. Peguei muda de roupa, algum trocado e nunca mais voltei. A única coisa que eu pude fazer, depois de muito, foi ajeitar escola, com galinhas e biriba para toda molecada da nova vizinhança. Ninguém ocupou o cargo como a professora embalada em tecido de frutas. Ficou apenas a árvore frondosa, pahutan de muitos pomos, suculentos, com circunferência de quase 4 metros de sombra rasa. Era a única coisa que me fazia encarar com algum sorriso a minha rotina já quase idosa. Gigante em belezura, fruto das sementes que carreguei na cangalha, da árvore da nossa escola da infância. Da época que nem os seios das colegas de classe apontavam em tecido de chita e que balançávamos em borracha de pneu nos troncos da mangueira. Sempre com os olhares atentos da nossa mestra, que nos fazia acreditar num futuro promissor. E quando perguntam na cidade onde fica a escola próxima, escutam: “Ali, no sítio Menina Alice! Aquele de porteira bem cuidada”.

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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