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Eram cinco, seis, talvez oito notas que soavam ininterruptamente na minha cabeça. Apresentavam ritmos diversos. Eufóricos, quase sambas. Lentos, como mantras; chegavam muitas vezes a me fazer dormir. Um presente, talvez, oferecido aos meus sentidos e tomando conta de cada minuto dos meus dias.­ Por encontrar-se no campo do invisível, conformei-me ser algo sigiloso e solitário. Para não enlouquecer, trabalhei os sons com associações que poderiam me trazer calma, enganando assim o susto. Uma delas, das mais doces, me lembrava a quantidade de piscadas que o lindo olhar de Marília dava na ansiedade de me fazer declarações de amor. Afinal, eram sim olhos que piscavam melodias.

Com o tempo, o desdobramento técnico dos arranjos foi ficando mais sofisticado. As pessoas falavam, falavam e eu já não conseguia me concentrar em vozes. Minha mente comandava dia e noite uma vertigem de melodias, elaboradas num tanto que não sobrava espaço para qualquer tipo de atividade que exigisse um mínimo de atenção.

Doutor passou remédio, deixou-as maleáveis, menos ritmadas, mas não cessaram por completo. Sugeriram um pai de santo, voltei com um atabaque entre as melodias. Assim como o som de flauta, que apareceu depois que passei pela porta de uma igreja e vi um menino flautista, muito do engenhoso. Estava na porta pedindo moedas, tão pequenino; dei cinco tostões a ele e o levei para comer sanduíche de peru. Disse um: “Obrigada, tio”. Eu que agradeci. Porque, no fim das contas, mesmo sem saber, ele me presenteou com mais um instrumento. Notei assim que havia um horizonte a ser explorado, mesmo que muitas vezes me levasse à exaustão.

Era dificílimo me concentrar em reuniões de trabalho; por pirraça os músicos da minha cabeça tocavam as mais divertidas fanfarras e ficava impossível levar algo a sério. Isso tudo, não minto, gerou um certo descompasso em minha vida e muitas mudanças na rotina. Marília, a menina que piscava em ritmos, me largou. Entrou na paranoia que eu devia estar apaixonado por outra, já que andava por demais avoado e assobiando pelos cantos; contou, inclusive, que me observava dançando em qualquer lugar. “Isso é paixão das brabas”, disse com seu olhar piscante e ciumento. Deixei-a ir; naquela altura do campeonato, ela tinha razão sobre eu nunca mais ouvi-la com atenção.

Até que um dia, desses nublados, acordei num silêncio ensurdecedor. Aos poucos, começaram as buzinas, o vento assobiando pelas frestas da janela, britadeiras em obras de outros quarteirões, carros, trens, ônibus, falas, passos, pássaros… Entrei num colapso saudosista de todas as composições que viveram em mim nos dias melódicos. Tentei pular da ponte mais alta da região, quando uma brisa leve trouxe, de repente, um lá sustenido. Seguiu com um dó e assim foi, segundo a segundo. Não mais ruídos. Deparei com um cenário já esboçado, íntimo até. Desci do parapeito e segui rumo ao nada, dançando leve, divagador.

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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