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O sopro forte punha inquietas as cortinas, onde outrora nem cumpriam a função de sombras, já que no abandono de cuidados femininos, ressecavam os tacos de madeira num chão aquecido pelo tempo. Até Beta chegar. Veio não se sabe de onde, com nome de estrela e não de santa.

Dizia-se neta distante, de filha desconhecida do seu Tenório. Veio cuidar do pobre, que com passar dos anos já nem chegava perto da janela, quanto mais da porta. O fato é que depois da vinda da moça, o bochorno — tipo de vento insalubre e quebradiço — virou brisa suave. Fresquidão, conforto, sopro bom. Heitor soube de tal testemunho, por puxar conversa enquanto amaciava os jardins dos arredores.

Num ato de coragem, cuspindo o tabaco mastigado, num desejo de roubar estrela, ajeitou o cabelo suado na testa para trás e atravessou a via de terra que dividia os dois casebres da distância em que se encontrava. Sem pedir licença, pegou goiaba na árvore da esquina e levou em cortesia. Tenório, que não mostrava face na janela há muito, apareceu vistoso e garbo no portão. Parecia até espectro. Pegou a fruta, e num sorriso trocista parecendo entender os motivos do jardineiro, virou as costas.

Essa grossa patifaria não persuadiu o rapaz a mudar desejo de conquista. “Só não tomo partido de confusão pois não costumo dizer nomes feios”, resmungou. Os dias seguintes compuseram chuva larga, sem sinal da dança em flor. Heitor acordava soberbo, não pela falta do cuidado de suas plantas. O barulho do galo da igreja rodopiando por água dos céus, com o seu canto enferrujado, lhe tirava qualquer ousadia em sair da cama.

Foi numa manhã radiante, tropicando nos remendos do tapete de tecido, que aparou a barba e calçou botina nova sem conter anseio. Seguiu. Estranhou cortina suja e a falta de lençóis no varal. O vento também não lhe soava canção. Estava mais para o bochorno de antigamente. Bateu na porta três vezes e ouviu apenas resmungo de malcriação. Como sempre foi.

Passaram-se dias e semanas até resolver perguntar ao carteiro Genival sobre a moça que, surpreso, não entendeu indagação. Foi a igreja e questionou o padre. Pela grade do confessionário, afirmou jamais ter visto um rabo de saia na velha casa. Confuso, foi investigar com os colegas, que mangaram do dito atribuindo que tamanho desvario se dava pela falta de noitada. Na janela do seu Tenório, somente o bater das trincas ao vento, não mais cortinas bordadas à mão.

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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