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Era um saquinho de feltro velho, gasto, costurado com uma cianinha lilás. Dentro, junto com os intervalos do medo onde se colhia a coragem, uma medalha de São Roque. Amuleto esse, ou patuá, foi colocado em meu pescoço assim que nasci. Dizem que, quando o líquido viscoso ainda percorria o meu corpo recém-saído do ventre, sobressaía a vermelha cruz em meu peito. Parece que o santo referido há pouco apresentava chaga igual ao nascer.

Mãezinha, em um doce enlevo, acreditou por uma vida que meu destino seria parecido com o do tal santo. Em sua inocência, dona Cida não se deu conta que já começamos bem diferentes. O santo vinha de família abastada. Eu nunca tive essa sorte. Roque (me dou o direito à intimidade) escolheu viver na miséria como senhor Jesus. Eu não escolhi, apenas vivi. Inclusive confesso, na minha imperfeita humanidade, se tivesse o poder da escolha não renunciaria fortuna. Mas como nunca conheci outro mundo, inclusive sempre achei ser isso mesmo, me sentia agraciado pela vida.

Mâezinha foi cedo, me deixou um punhado de saudade doída. Ferramentas como o tempo, habilmente souberam minimizar a dor, empregando com suas diabruras a transformação do luto em boas lembranças. Órfão então, corri atrás do mundo. Pai, nunca soube o que é ter um. Sendo assim, falta não fez. Bem criado e mimado por tias eu cresci. Quem costurou o meu amuleto, inclusive, foi a tia Jandira. Quem escolheu a cor da cianinha, foi a prima Maria, ainda menina. Ela que me fez companhia nesse caminho sem rumo. Por dívida de jogo, único pecado das tias, nos levaram até as galinhas. Saímos numa madrugada, a esmo. Logo conseguimos guarida, nossas barrigas nem chegaram a roncar. Uma coisa é certa, o tal amuleto chamava a atenção, talvez pela cor ou pelo trapo em que se encontrava após os anos. Sempre ao contarmos a história, forte em suas vigas, dava algum senso de responsabilidade ao ouvinte, que acabava sempre achando por bem ajudar. Assim seguimos, eu, a prima e o Roque.

Não demorou para ajeitarmos a vida, Maria casou com homem que atuava como santo, dizia-se pastor. Me deu colchão até eu entender qual lida levar. Escolhi a gaita, por um forte motivo: era a única coisa que mãezinha tinha do senhor meu pai. Dizia inclusive que ela enfeitiçava mulheres. Disse até que apanhou barriga por essa crendice e confiscou o instrumento da mala do pobre antes de ele partir. Parece ser conversa, porque eu nunca consegui sequer uma piscadela das minhas preteridas, nem mesmo quando afinava no assopro. Na verdade, o meu amuleto chamava mais a atenção do que eu mesmo, do que a gaita, do que qualquer palavra, até tenho dúvidas se algum dia alguém realmente prestou atenção em minhas feições, que diga-se de passagem eram bem jeitosas, puxei a mãe.

Num dia de farra pela estrada, com os músicos que vivia, dormi em cabaré. Dia seguinte a cabeça doía de nada lembrar. Já em viagem, me dei conta que o Roque preferiu ficar. Talvez por termos completado maioridade na noite anterior, ele se achou no direito. Eu, que antes mesmo achava boba a superstição que nos mantinha conectados, vi minha ledice falhar. Provavelmente, mais pela convivência do que pela crença.

Dois anos passaram e numa noite desavisada me vi no mesmo cabaré. Perguntei por Eulália, moça que passei a noite da virada dos meus 21 anos de idade. A dona me perguntou se eu era o afilhado de São Roque, me assustei e consenti. Ela contou que a moça mudou de vida após a noitada. Disse que depois de presenteada com um tal amuleto, fez promessa de estudar e mudar de vida. Cursava então faculdade na capital e cuidava de um orfanato. Me entregou um bilhete que continha um saquinho de estopa bordado com miçangas coloridas e dentro, uma medalhinha da santa Maria Madalena. Junto, um pedacinho de papel com número de telefone. Providenciei rumo com a banda, show na capital.

Hoje em dia, a minha cruz de nascença no peito dorme ao lado de Madá. Grudado nela, o nosso velho feltro em amuleto. Pelas manhãs, quando chego dos shows, a moça bonita prepara café fresco. Nossas sortes então ficam na cabeceira e dividimos nossos corpos cheios de apetite e os nossos fluidos clandestinos. Uma coisa é certa — mãezinha, as tias e Maria sabiam das coisas. Essa crendice de amuleto dá mesmo uma sorte danada.

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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