A sorte não vem do realejo

Imagem de indy_bbw0 por Pixabay

Caminhou sem a decisão da sobriedade, como se fossem bambas as alpargatas. Da noitada só conseguia lembrar do sabor de chiclete de cereja na boca da trapezista. A manhã mal começou a se espreguiçar e, mesmo com a cabeça frita de cachaça, ele entendia num frio na espinha que provavelmente já estava jurado pelo povo do circo.

A melodia de caixinha de música do realejo bem que tentou avisar: “Surpresas de amor precisam de cautela”. Como exigir tamanha proeza quando ele e o passarinho que lhe entregara a sorte, num pequeno papel amarelinho, já estavam fascinados pelo voo da menina trapezista? A pequena ave, por invejar tamanha liberdade. E Joel, por entender que a sorte não vem do realejo e sim das sapatilhas encardidas pelos ares.

Acompanhou o espetáculo, a cidade toda em peso, criançada se refastelando. Saiu atrás de uma bituca por não aguentar rirem tanto dos pobres palhaços. Aquilo sempre o incomodava, de humilhação já basta a vida em lida de todos nós. O que não esperava era ser surpreendido pela jovem bailarina no arremate daquelas lonas. Sabia bem, por histórias mal contadas de cabras da região, que com mulher de circo não se brinca. Mas o papel bicado pelo pequeno passarinho dissera que algum milagre estava certo de acontecer, foi um erro não ler as entrelinhas e parar na frase: “Surpresas de amor”. Como dizia a vó Donana: “Joel entende a vida da forma que bem quer”. Ao avistar os cabelos esticados em coque purpurinado e cílios que fascinavam mais que o velho mágico, estava certo que não poderia existir algo tão miraculoso como aquela visão.

Ficaram de conversa pelo resto das apresentações e depois saíram pelos cantos daquele mato todo. Foram horas olhando estrelas, cheirinho no cangote, beijo na boca com sabor de chiclete e muito dengo. Depois de certas horas a menina se demonstrou injuriada, queria fincar vida em algum canto, dizia aos prantos. Não entendia o pobre Joel, aprisionado em rotina sem novidades, tamanha maluquice. Quando ela perguntou se fugiriam juntos, ele entendeu que o olhar do passarinho do realejo combinava mais com a expressão “cuidado”, do que “milagre”.

Disse a santinha ser moça pura e por tal desfrute do coitado, que não foi pouco, merecia aliança e boa casa. Joel picou a mula, bebeu tanto, caiu em meio aos xiquexiques, acordou difuso. Ainda que grande a sua aflição, seguiu desejoso do café amargo da avó e tomou resolução — A trapezista deveria continuar voando, linda que era pelos ares. Cheirosa que era em vida, seu sabor de cereja não nasceu pra viver em terras mansas. Do bilhete amarelinho amarrotado pelo bolso, ainda ficara número da loteria. Uma fézinha vez ou outra não é pecado pra ninguém. E mais: para o pobre passarinho do realejo previu plano de fuga. Merecia o céu, da vida domesticada já bastava aquele povo, salvaria o bichinho. Esse sim era digno de milagres, livre e colorido nessa imensidão danada.

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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