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Eram cinco, seis, talvez oito notas que soavam ininterruptamente na minha cabeça. Apresentavam ritmos diversos. Eufóricos, quase sambas. Lentos, como mantras; chegavam muitas vezes a me fazer dormir. Um presente, talvez, oferecido aos meus sentidos e tomando conta de cada minuto dos meus dias.­ Por encontrar-se no campo do invisível, conformei-me ser algo sigiloso e solitário. Para não enlouquecer, trabalhei os sons com associações que poderiam me trazer calma, enganando assim o susto. Uma delas, das mais doces, me lembrava a quantidade de piscadas que o lindo olhar de Marília dava na ansiedade de me fazer declarações de amor. …


Arquivo da autora

Converso com a escritora sergipana Thainá Carvalho sobre seu mais recente livro de poesias, “As coisas andam meio desalmadas”, lançado esse ano pela editora Penalux. São mais de cinquenta poesias inéditas, em que a autora aborda a busca da alma, tantas vezes perdida, pelo cotidiano. Thainá mostra essa descoberta deixando claro que os deslizes de rota fazem parte do caminho.

1- Thainá, encarando “alma” no sentido mais simples da palavra — como “princípio da vida”, podemos nos dias de hoje entender que muito possivelmente deixamos de viver o que é essencial? …


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O sopro forte punha inquietas as cortinas, onde outrora nem cumpriam a função de sombras, já que no abandono de cuidados femininos, ressecavam os tacos de madeira num chão aquecido pelo tempo. Até Beta chegar. Veio não se sabe de onde, com nome de estrela e não de santa.

Dizia-se neta distante, de filha desconhecida do seu Tenório. Veio cuidar do pobre, que com passar dos anos já nem chegava perto da janela, quanto mais da porta. O fato é que depois da vinda da moça, o bochorno — tipo de vento insalubre e quebradiço — virou brisa suave. Fresquidão…


Imagem de Trystan DeArth-Pendley por Pixabay

Com sandálias de corda, vestindo cores de frutas suculentas em panos costurados pelas próprias mãos, surgia dona Alice. Era um sorriso dançante que emprestava gentileza ao todo que nos preenchia. O corpo moreno agitava aceno, me fazendo aluno orgulhoso e moleque invejado por todos os marmanjos da padaria.

Um dia, essa dona, sem dó nem piedade, ocupou-me de angústia. Resolveu, de hora pra outra, ir embora com um forasteiro que desfez a solteirice da professorinha. Não era cabra dessas bandas, nunca nem pisou com a sola nua nessas terras. Minha Alice, se é que me permitem o uso do pronome…


A moeda está debaixo da casca de noz da direita, insisti com o mágico. Ele ficou apreensivo com a minha ousadia de chutar tão em cima, e numa risada amarela desfez os barquinhos do fruto com uma rapidez de mestre. Ainda assim eu pude ver, que a moeda estava onde eu tinha previsto. Generoso, nada disse. Não queria encabulá-lo diante da sua dezena de espectadores.

Se ele tivesse sido honesto comigo e com a sua plateia, eu teria lhe ensinado a voar. Ou pelo menos a desejar por isso. Fosse literalmente tirando os pés do chão ou com o tipo…


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O pó no início da música quando desce a agulha para o vinil, a folha quando vira-se a página, o estalado na mordida da maçã, o seu ressonar antes de dormir completamente, o ruído do vento pelas frestas da janela de vidro, o desembrulhar do chocolate, o estouro da placenta, o sussurro antes do coito, o tocar da corda extremamente bem afinada do meu violão de adolescente, fico por horas imaginando todos esses ruídos afetivos enquanto você grita comigo.

Não quero nos magoar, não mais. Não posso mais acreditar nas coisas que todos insistem em dizer. Nem boas, nem ruins…


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Eu tinha nas mãos a existência. Bastava notar, me contratavam para deixá-la estampada em algum canto de uma parede rachada ou colorida, guardada em caixas velhas ou baús requintados, exposta pelas casas em pequenas molduras de vidro. Os mais apegados guardavam em seus bolsos, protegida em suas carteiras. Um único intuito: eternizar.

Era o retratista mais disputado, isso quando deixei de ser o único. Na minha fachada existia a palavra “tradição”, não é pouca coisa. Só teve uma pessoa desse lugar que eu deixei a existência escapar, dona Quinzinha. Ela jurava que o meu flash roubaria a sua alma, dizia…


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Era um saquinho de feltro velho, gasto, costurado com uma cianinha lilás. Dentro, junto com os intervalos do medo onde se colhia a coragem, uma medalha de São Roque. Amuleto esse, ou patuá, foi colocado em meu pescoço assim que nasci. Dizem que, quando o líquido viscoso ainda percorria o meu corpo recém-saído do ventre, sobressaía a vermelha cruz em meu peito. Parece que o santo referido há pouco apresentava chaga igual ao nascer.

Mãezinha, em um doce enlevo, acreditou por uma vida que meu destino seria parecido com o do tal santo. Em sua inocência, dona Cida não se…


Imagem de indy_bbw0 por Pixabay

Caminhou sem a decisão da sobriedade, como se fossem bambas as alpargatas. Da noitada só conseguia lembrar do sabor de chiclete de cereja na boca da trapezista. A manhã mal começou a se espreguiçar e, mesmo com a cabeça frita de cachaça, ele entendia num frio na espinha que provavelmente já estava jurado pelo povo do circo.

A melodia de caixinha de música do realejo bem que tentou avisar: “Surpresas de amor precisam de cautela”. Como exigir tamanha proeza quando ele e o passarinho que lhe entregara a sorte, num pequeno papel amarelinho, já estavam fascinados pelo voo da menina…


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Eu era cabra de pouca fé e por isso consentia ser tamanha bobagem o pedido habitual de Eulália ao rezar: : “Que me traga o extraordinário, meu Pai”. Finalizava seu apelo com o sinal da cruz e ficava alguns poucos instantes em silêncio. Não minto que era gracioso de se ver, doce. Os seios fartos me chamavam a atenção nessa hora santa, inclusive foram eles que me fizeram ir atrás dessa mulher, quando ainda moça rezava na estátua de Padre Cícero que ficava ao lado da praça.

Por não entender muito das redenções religiosas, eu escolhi a música para me…

Renata Py

Autora do livro “Firmina” — Laranja Original (2019)

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